Derechos Humanos y
Solidaridad Democrática Internacional

Prensa

10-08-2003

OBRA DE ARGENTINO ANALISA O TRABALHO DE JORNALISTAS CUBANOS INDEPENDENTES

''A revolução, na essência, tinha muito do que se orgulhar. O problema é que as pessoas não conseguem, não querem ou têm medo de enxergar que hoje Cuba é a ideologia de uma ditadura. A privação de liberdade não justifica um ideal''
Fuente: Folha de São Paulo (Brasil)

Livro disseca adversários de Fidel
ELAINE COTTA
DE BUENOS AIRES

Perseguidos pelo regime do ditador Fidel Castro, os dissidentes cubanos condenados à prisão são ex-revolucionários que deixaram de apoiá-lo quando perceberam que o conteúdo de revolução do regime se perdeu e o que sobrou é somente uma ditadura.
A constatação é do jornalista e professor argentino Fernando Ruiz, que lançou, na última segunda, em Buenos Aires, o livro "Otra Grieta en la Pared" (outra rachadura na parede), no qual analisa o trabalho da imprensa não-oficial do país.
Cientista político e doutor em Comunicação Pública pela Universidade de Navarra, Ruiz, 40, é autor de outros dois trabalhos em que analisa a relação da imprensa com governos ditatoriais. Começou estudando o próprio país, a Argentina, que entre 1976 e 1983 viveu uma das ditaduras mais violentas da América Latina.
No ano passado, viajou a Cuba para fazer o mesmo. "Cuba parecia um caso real, longe da teoria", diz. Ficou sete meses no país, até fevereiro deste ano. Ouviu jornalistas independentes -muitos dos que foram detidos pelo governo cubano em março-, foi preso e em seguida deportado à Argentina, sem direito a despedir-se de ninguém. Em entrevista à Folha, falou sobre o livro, Cuba e a situação da imprensa do país.
 
Folha - Qual foi o objetivo de sua pesquisa em Cuba?
Fernando Ruiz - O interesse foi a vida privada e profissional dos jornalistas independentes. No caso cubano, não há nada mais para se agregar no debate político e econômico. O que falta é olhar a realidade, como está a vida das pessoas, falar sobre a liberdade concreta dos cidadãos.

Folha - E como é a vida desses dissidentes do regime?
Ruiz - A maioria foi revolucionária e percebeu que, em algum momento, o regime perdeu esse seu conteúdo de revolução e virou somente uma ditadura. Essas pessoas não estavam mais dispostas a apoiar um projeto que acabou sendo perverso. E é preciso ter muita coragem para romper, admitir que dedicou parte da vida a um ideal fracassado. O regime cubano não tem mais conteúdo social nem revolucionário. É uma ditadura personalista.

Folha - Como é o dia-a-dia?
Ruiz - A situação de dissidente implica romper com o Estado. Por isso, a maioria não tem trabalho. Muitos sobrevivem dos dólares enviados por parentes do exterior. Outros escrevem para veículos estrangeiros. Os jornais independentes são feitos artesanalmente: páginas datilografadas em papel sulfite e fotocopiadas na sede de embaixadas estrangeiras.

Folha - O sr. tentou ouvir o outro lado, os jornalistas oficiais?
Ruiz - Minha pesquisa tinha três fases: ouvir os dissidentes de Havana e do interior e jornalistas da imprensa oficial. Mas não concluí essa fase. Fui preso antes.

Folha - E na prisão, como foi?
Ruiz - Passei por um interrogatório, mas não posso dizer que tenha sido violento. Fiquei dois dias incomunicável até que começaram protestos em Buenos Aires, pessoas dizendo que eu tinha desaparecido. Então decidiram me liberar. Saí da prisão direto para o aeroporto. Confiscaram tudo: blocos, jornais, gravações. Só liberaram exemplares do jornal oficial.

Folha - Fidel Castro ainda é admirado?
Ruiz - Não discuto a saúde e a educação cubanas. Fidel representa um símbolo importante para várias gerações políticas. A revolução, na sua essência, tinha muito do que se orgulhar. O problema é que as pessoas não conseguem, não querem ou têm medo de enxergar que hoje Cuba é a ideologia de uma ditadura. A privação de liberdade não pode ser justificativa para um ideal.

Folha - Cuba sempre foi um país muito rico culturalmente...
Ruiz - A criatividade está reprimida. Cuba vive um empobrecimento cultural muito triste. Há uma história de expulsão da criatividade. A desocupação é imensa. Pessoas o tempo todo na rua, sentadas diante de casa por todo o dia. Não duvido que, em Cuba, há fome. Creio que sim. Mas, se o governo manipula os dados, quem vai saber qual é a verdade?

Folha - E isso vai até quando?
Ruiz - No dia em que Fidel morrer, creio, será muito difícil que o regime se perpetue. Mas Fidel ainda pode viver 20 anos, tempo suficiente para que muitos dos jornalistas que foram presos no início deste ano cumpram suas penas.

Folha de São Paulo (Brasil)
 
 
 

 
 
 
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